Os filhos dos “Retornados”

Após mais de três décadas pautadas por um forte silêncio analítico no que diz respeito à presença portuguesa em África no período que constitui o “último capítulo” do império português, esta dissertação discute as memórias, pós memórias e representações que surgem da experiência africana e do abrupto retorno após a revolução de Abril de 1974, tendo como base não apenas os testemunhos daqueles que viveram os espaços africanos entre as décadas de 1950 e 1970 (“retornados”) mas também dos seus filhos. A partir destes últimos relatos, de uma geração que não experienciou o espaço ou o tempo vivido pelos pais, procura-se compreender de que forma a experiência africana se manifestou “à escala” do lar, entre narrativas, silêncios, artefactos e, acima de tudo, como essas manifestações influenciaram as pós-memórias e representações destes indivíduos que vivem entre uma memória nacional dominante, e as memórias familiares. Num presente em que o passado colonial é tantas vezes “demonizado” ou romantizado (notadamente a partir do chamado “marketing da nostalgia” ou “literatura de retornados”), importa compreender as visões daqueles que constituem a última personificação da presença colonial portuguesa no continente africano, assim como dos indivíduos que, num contexto europeu, num Portugal depois de Abril, crescem em lugares onde a África do passado terá estado sempre presente – geração da pós-memória.
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Os “Retornados” das ex-colónias portuguesas: representações e testemunhos

Após o 25 de abril de 1974, dá-se o fim da guerra colonial e o início do processo de descolonização, que consequentemente provocou o regresso de milhares de portugueses das ex-colónias portuguesas, ficando conhecidos por «retornados». Partindo da análise da fonte hemerográfica, O Comércio do Porto, e na recolha de testemunhos, este artigo pretende analisar o perfil dos retornados, o seu regresso e a sua reintegração durante o ano de 1975, no Porto. A maioria dos retornados provinha de Angola e detinham qualificações superiores à média nacional. Muitos regressaram através da “ponte aérea” contando com ajuda internacional e de vários apoios, como por exemplo o IARN, que foram importantes para o seu regresso.
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Os Inseparáveis da Huíla: comemoração e nostalgia colonial nos encontros de portugueses retornados de Angola

O retorno de nacionais aquando da independência das ex-colónias portuguesas, em 1974-75, assinalou um momento de rutura na longa história da expansão portuguesa. O fim do império representou para aqueles que retornaram o corte com todo um sistema de relações que antes era suportado pelo projeto colonial. Em primeiro lugar, o fim de uma relação com um espaço de pertença eletivo – a África colonial. Mas também o fim de uma relação sensorial com esse espaço, com as suas sonoridades, sabores, relações de proximidade e de vizinhança, formas de vida, relações de poder e privilégios. Em tempos pós-coloniais, estas relações são periodicamente revividas e reafirmadas no âmbito da pertença a grupos e através da participação em encontros anuais onde estes portugueses retornados das ex-colónias africanas reafirmam e recriam uma identidade luso-angolana e restabelecem provisoriamente os laços sociais que foram quebrados com a descolonização. Nestes encontros dão plena expressão a formas de revivalismo nostálgico que, se bem que preferencialmente praticadas por aqueles que retornaram, não deixam também de assinalar o sentido mais amplo da nostalgia pós-colonial portuguesa em tempos pós-coloniais.
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